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Marcel Rizzo

'Que ganhe em campo, campeonato não terá tapetão', diz presidente do STJD

Marcel Rizzo

01/11/2016 05h00

O STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) arquivou pedidos de anulação de jogos, de paralisação de campeonato e retirada de pontos nas Séries A e C do Brasileiro em 2016.

Presidente do tribunal desde julho, Ronaldo Botelho Piacente disse ao blog que não acontecerá de o STJD mexer com frequência em resultados de campo, o famoso asterisco na tabela do campeonato que muda classificações.

A não ser, segundo ele, que haja prova contundente de irregularidade, como compra de jogadores ou árbitros para que o resultado seja manipulado.

O tribunal tem histórico de alterar placares, o famoso "tapetão". Em 2005, jogos foram anulados após se comprovar um esquema de arbitragem que manipulava resultados para favorecer apostadores. Em 2013, um jogador escalado irregularmente fez a Portuguesa ser rebaixada, no lugar do Fluminense.

Este ano, Fluminense e Figueirense tentaram anular partidas na Série A, e os dois pedidos foram rejeitados. "Os clubes que ganhem no campo. Não ganha no campo e depois tenta o tapetão? Não terá isso no STJD", disse Piacente. Leia a entrevista.

Blog: O tribunal rejeitou os pedidos de anulação de Figueirense e Fluminense na Série A, e na Série C o América-RN e o Remo também tentaram a perda de pontos de outros clubes. A tendência é o tribunal mexer o mínimo possível nos resultados de campo?
Ronaldo Piacente: Sem dúvida. Nem adianta vir com umas teses absurdas. Teve uma em que o clube explicou que cinco anos atrás, uma procuração de tal sujeito não dava condição de jogo ao atleta X [na Série C, pedidos de América-RN e Remo contra o Botafogo-PB]. Estão de brincadeira, não dá. A prerrogativa nesses casos é do presidente [do STJD], e não vou tirar pontos, não vou anular jogo ou parar campeonato se não tiver provas robustas.

Provas robustas seriam o que exatamente?
Que o árbitro recebeu dinheiro para armar o resultado, que o goleiro deixou entrar a bola, que haja uma confissão de que algo assim aconteceu. Sem isso, vai se manter o resultado de campo. O tribunal não pode exercer tanta influência nos resultados, na classificação. Não adianta vir com historinha, a não ser que seja muito evidente.

Como o senhor avalia essas tentativas sem provas concretas?
No STJD, sou obrigado a receber e analisar as questões, tudo que vai para o tribunal. Mas chega no fim do campeonato, e o pessoal fica tentando achar história. Vai lá e ganha no campo, briga pelo título no campo. Aí não ganha em campo, e depois vai tentar no tribunal, no tapetão. Isso está fora de cogitação.

Como o senhor tem avaliado as punições que o tribunal tem dado de proibir que o clube venda ingressos ao espaço destinado às organizadas [Palmeiras, Flamengo e Corinthians foram punidos, após briga de seus torcedores]?
Positivo. Lógico que não somos bobos. Falaram, ah, mas a torcida organizada do Palmeiras migrou do [setor] gol norte para o gol sul. Estavam lá, todos de branco. Se deslocaram? Provavelmente. Mas tivemos algum incidente? Não, e sei porque estou em contato com a polícia, temos reuniões sempre. A ideia era essa, tirar a organizada de sua zona de conforto. O tribunal desportivo não tem como prender, e estávamos vendo que os dirigentes dos clubes estavam reféns.

Como reféns?
Quando eu estava como corregedor do tribunal, a principal reclamação dos clubes era de que acabavam punidos com multas, R$ 50 mil, R$ 80 mil, mas o problema da violência não era resolvido. O presidente que rompia com a organizada, sofria retaliação, a organizada levava sinalizador e o clube era punido. Eu perguntava aos dirigentes porque não denunciavam, e eles falavam que tinham família, não podiam. Estavam com medo, eram reféns. Pensamos, e decidimos tirar o espaço dos organizados, já que não podemos prender [atribuição da Justiça comum].

E a proibição de venda de ingressos desses clubes como visitantes, outra das punições?
A ideia aí foi de reprimir uma receita das organizadas. Em conversa com a Polícia Militar e o Ministério Público, ouvi que as organizadas ganham muito dinheiro com essas caravanas em jogos como visitante. E o dirigente é pressionado a ceder os ingressos para as organizadas nessas partidas fora de casa. Ouvimos os dirigentes dos clubes, fomos tentar entender. Não adianta só multar o clube.

Mas mesmo com os torcedores de organizadas ainda entrando nos estádios e vendo os jogos, o senhor avalia como um sucesso a medida?
Ok, eles entram pelo outro lado. E vamos deixar como está? Jogo de portão fechado pune todos, o "torcedor de radinho", o cara que quer ir com o filho ali ver o futebol. Diminuímos o espaço da organizada, tiramos ela do seu lugar. Ela está lá? Provável. Mas a violência não diminuiu? Não tivemos problema até agora.

Sobre o Autor

Marcel Rizzo - Formado em jornalismo em 2000 pela PUC Campinas, passou pelas redações do Lance!, Globoesporte.com, Jornal da Tarde, Portal iG e Folha de S. Paulo, no qual editou a coluna Painel FC. Cobriu Copas do Mundo, Olimpíada e dezenas de outros eventos esportivos.

Sobre o Blog

Notícias dos bastidores do esporte, mas também perfis, entrevistas e personagens com histórias a contar.