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Como Fifa usou a China para evitar boicote europeu a novo Mundial de Clubes

Marcel Rizzo

07/11/2019 10h45

A China tem enchido os cofres da Fifa nos últimos anos, ajudando na recuperação da entidade após denúncias de corrupção que derrubaram cartolas mundo afora no futebol, mas também se tornou um oásis para clubes europeus que veem no mercado asiático sua galinha de ovos de ouro. E foi com esse ingrediente que a Fifa fez sua jogada de mestre para amenizar críticas, e até possibilidade de boicote por parte da Europa, a seu novo Mundial de Clubes.

A escolha da China como sede da primeira edição do torneio inchado com 24 equipes em 2021, e que será quadrienal e não mais anual, não foi simplesmente para agradar hoje seu principal parceiro comercial: a Fifa também levará os clubes europeus a seu mercado mais atraente. Por isso não houve uma concorrência para definir a sede do Mundial, e sim uma indicação. O Brasil, que se interessou pelo torneio, ouviu que não se candidatasse oficialmente porque o torneio seria na China.

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A "desculpa" oficial da Fifa para escolher a China foi a de que o Mundial sempre servirá de teste para o país, ou países, sede da Copa do Mundo no ano seguinte. O torneio substitui no calendário a fracassada Copa das Confederações, torneio de seleções que não dava dinheiro à Fifa e que funcionava como evento-teste das Copas. O problema é que em 2022 o Mundial de seleções será no Qatar, país que tem muito calor entre junho e julho, quando ocorrerá o campeonato de clubes. A Fifa, então, avisou que não jogaria no Qatar, mas não tiraria o torneio da Ásia. Abriu assim caminho para a China ser a sede sem concorrência de outros filiados.

"O mercado chinês é um dos mais importantes e o Mundial de Clubes na China será fundamental para clubes consolidarem esse mercado", disse Jörg Wacker, executivo do alemão Bayern de Munique responsável por projetos internacionais da marca. Ele conversou na semana passada com jornalistas das Américas em Frankfurt, antes da derrota de seu time por 5 a 1 para o Eintracht Frankfurt pela Bundesliga.

O Bayern tem, desde 2017, um escritório em Shangai, na China. Essa operação foi aberta antes ainda da que o clube tem agora nos Estados Unidos, outro mercado que interessa muito a clubes europeus e que deve ter ativações aumentando nos próximos anos pegando como gancho a Copa do Mundo de 2026, que será repartida entre EUA, México e Canadá — o Mundial de Clubes de 2025, por sinal, deve ocorrer nos EUA.

O Bayern é um exemplo, mas clubes ingleses como os Manchesters City e United, os italianos como Milan e Inter de Milão e até o francês PSG miram o mercado chinês, e não é de hoje. O time de Neymar, por exemplo, fez o lançamento oficial de seu terceiro uniforme este ano, em julho, em Shenzen, na China — com o brasileiro desfilando. Depois o time fez alguns amistosos por lá. Para a Fifa, avisar aos clubes europeus de que o primeiro mundial seria em solo chinês facilitou muito a aceitação do torneio que teve críticas quase sumindo dos noticiários.

Na negociação com a Uefa para a realização do torneio, e que ficou definido que serão oito times do continente no torneio (a América do Sul terá seis), a Fifa pediu inicialmente que a Uefa indicasse os campeões e vices da Liga dos Campeões das quatro temporadas anteriores ao Mundial. Os melhores iriam, portanto. A contraproposta da Uefa foi de classificar também via Liga Europa, seu segundo torneio em importância. A Fifa gostou.

Se esse modelo for confirmado, quatro times já têm vaga garantida no Mundial da China em 2021: Real Madrid e Liverpool, campeões da Liga dos Campeões 2017/2018 e 2018/2019, e Atlético de Madri e Chelsea, campeões da Liga Europa 2017/2018 e 2018/2019, respectivamente. A eles se juntariam os vencedores de 2019/2020 e 2020/2021.

*o repórter viajou a Frankfurt a convite da Bundesliga

Sobre o Autor

Marcel Rizzo - Formado em jornalismo em 2000 pela PUC Campinas, passou pelas redações do Lance!, Globoesporte.com, Jornal da Tarde, Portal iG e Folha de S. Paulo, no qual editou a coluna Painel FC. Cobriu Copas do Mundo, Olimpíada e dezenas de outros eventos esportivos.

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