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Escolta policial e carro dividido: a rotina do futebol na ‘guerra’ do Ceará
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Marcel Rizzo

Uma rotina diferente para os jogadores, comissão técnica e direção do Fortaleza no início de 2019: escolta policial para seu ônibus chegar ao centro de treinamento. A precaução ocorre devido à série de ações criminosas que assola o Ceará desde da noite de quarta (2) passada — ao menos 170 atentados ocorreram em todo o estado, entre ônibus e carros queimados, ataques a prédios públicos e privados e até a viadutos em importantes estradas.

Para se deslocar da sede do clube, no bairro do Pici, ao CT Ribamar Bezerra, na cidade de Maracanaú, na Grande Fortaleza, são 12 km e normalmente a maioria dos atletas deixa o carro próprio na sede e vai de ônibus ou van até o centro de treinamento. Nos últimos dias, o ônibus só deixa o Pici se tiver um carro da polícia para acompanhar.

“Nossa alteração de rotina foi essa, pedir escolta para ir com o ônibus. Se não tem a escolta, como já ocorreu alguns dias porque a polícia não pôde atender ao pedido devido à demanda dessa situação, os atletas ou foram no carro próprio ou de Uber, táxi.  É uma questão de segurança”, disse Sérgio Papelin, gerente de futebol do Fortaleza.

O CT Ribamar Bezerra está a apenas 12 km do viaduto na BR-020 que foi um dos primeiros alvos de membros de facções criminosas a quem são atribuídos os ataques no Ceará. Na madrugada de quinta (3), explosivos danificaram a estrutura da ponte que liga as BRs 020 (que leva Fortaleza a Brasília) e 222 (que vai ao norte do estado, como Sobral). Ela está interditada até agora.

Papelin disse que não houve mudança em horário de treinamentos e que os atletas, principalmente aqueles que chegaram agora ao time e à cidade, mantêm a calma. “Não houve até agora nenhuma manifestação, o trabalho está sendo desenvolvido normalmente”, disse Papelin.

O transporte dos atletas também tem sido a preocupação no Ceará, clube que treina em uma região mais central de Fortaleza, no bairro de Porangabuçu. O técnico Lisca contou ao blog que os atletas têm sido orientados a dividirem carros entre três ou quatro profissionais para evitar problemas — diferentemente do Fortaleza, que disponibiliza o ônibus pela distância de seu CT, no Ceará todos vão com os carros próprios.

“Pedimos para eles evitarem andar sozinhos, tentar chegar em grupo. Tivemos notícias de alguns sequestros relâmpagos, no fim do ano passado um funcionário foi assaltado próximo, então tivemos essa preocupação”, disse Lisca, que como a comissão técnica do Fortaleza não alterou horário de treinamentos devido à onda de violência.

Lisca vive próximo à avenida Beira-Mar, região nobre de Fortaleza, e passa pelo centro da cidade até chegar a Porangabuçu diariamente. “Nesse trajeto está tranquilo, nem tenho visto muitos carros da Força Nacional [de Segurança], por exemplo. O problema está mais concentrado em áreas mais periféricas da cidade, pessoal sofrendo com falta de transporte”, disse Lisca. Desde sábado (5), o governo federal enviou mais de 400 homens de sua Força Nacional para ajudar no policiamento e combate aos membros de facções.

Gaúcho, Lisca trará dessa vez sua família para Fortaleza. Em 2018, quando assumiu o Ceará na Série A do Brasileiro em junho e conseguiu livrar o time de um rebaixamento que era dado como certo, ele preferiu deixar os familiares em Porto Alegre sem saber quanto tempo ficaria no comando da equipe.

“Em 15 dias eles chegam, mais ou menos. Não tem uma preocupação maior, o Brasil inteiro está perigoso. Em Porto Alegre, no início de dezembro, cheguei em casa e tinham entrado e roubado duas TVs. Minha sogra foi pega, levaram para o banco, ameaçando dizendo que estavam com minha mulher”, contou Lisca. Quando os ataques no estado começaram, ele contou que seus pais ligaram apavorados.

“Eu disse para ter calma, que era algo em regiões mais afastadas. Mas é preciso, claro, sempre ter cuidado”, disse o treinador.

Campeonato Cearense

Por enquanto, os atos criminosos e o deslocamento de 100% dos agentes de segurança do estado para conter essas ações não tem atrapalhado o torneio, que começou no dia 5 de janeiro. Há um detalhe, porém: Ceará e Fortaleza só estreiam em fevereiro, direto na segunda fase. Por enquanto times com torcidas menores estão em ação, portanto requerem menos policiamento nas partidas.

“Ainda é cedo para avaliar o que pode acontecer, mesmo na Copa do Nordeste “, disse Papelin. O Fortaleza estreia na competição regional dia 15 de janeiro, no Recife, contra o Náutico. Só atua no Castelão dia 27, frente o CSA. O Ceará joga antes em casa, dia 17 diante do Sampaio Corrêa, também no Castelão. Por enquanto não há risco de adiamento, mas somente a sequência dos atentados no estado é que vai determinar se haverá condições de ter policiamento na partida.


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