Blog do Marcel Rizzo

Arquivo : Fifa; China; mercado

Freio na China: valor dos negócios despenca com imposto e limite de atleta
Comentários Comente

Marcel Rizzo

Estranhou que os chineses não atacaram com ímpeto o mercado brasileiro na janela de transferências de início do ano? Pois não foi apenas por aqui. Uma regulação maior nas transações por parte da federação chinesa, para valorizar o mercado local mas também por pressão da Fifa, fez com que os investimentos dos clubes da China em contratações despencassem na temporada 2017/2018 – negócios feitos a partir de agosto do ano passado.

Dados do sistema de transferências da Fifa mostram que até agora a liga chinesa foi apenas a 11ª que mais gastou comprando jogadores de meados de 2017 para cá, com US$ 112 milhões (R$ 363 milhões) – ainda deve aumentar porque o mercado na China só fecha em 28 de fevereiro. Para alcançar o décimo posto é preciso ultrapassar a liga belga, que desembolsou R$ 403 milhões, mas especialistas não acreditam em grandes negociações do país asiático nessas próximas semanas.

Mesmo que suba uma posição, será a mais discreta participação da China no mercado de transferências do futebol desde 2011/2012, quando foi a 13ª que mais gastou, com US$ 55 milhões (R$ 177 milhões). Na temporada passada, 2016/2017, a principal liga chinesa ficou em quarto em investimentos, com incríveis US$ 690 milhões (R$ 2,2 bilhões). Perdeu apenas da Premier League (Inglaterra), para a Primeira Divisão da Itália e para a Bundesliga, a elite alemã. Em 2015/2016 foi a quinta e em 2014/2015, a sexta.

O alto gasto de clubes chineses no mercado chamou a atenção da Fifa em 2016, quando federações principalmente da América do Sul e de países de médio porte no esporte da Europa passaram a reclamar do assédio descontrolado do país asiático. Se oferecia salários fora da realidade, e se pagava multas rescisórias consideradas altíssimas nesses países. Não havia concorrência, e chegou a Zurique o pedido para que se criasse alguma regulação.

Clubes de Inglaterra, Itália, Alemanha, Espanha e França gastam também milhões e milhões em transações, mas as principais, aqueles em que se paga acima de um testo preestabelecido, ocorre entre as principais agremiações. O PSG desembolsou o que pôde para tirar Neymar do Barcelona, mas aí é uma briga, digamos, de “gigantes”. Os chineses chegavam no Brasil, na Argentina e em países médios da Europa e muitas vezes nem negociavam. Pagavam multa, ofereciam salários exorbitantes, e levavam os atletas sem pedir licença.

A Fifa levou a reclamação aos chineses, que apesar de terem clubes milionários (ajudados de empresas estatais com objetivo de impulsionar o esporte) ainda têm uma fraca seleção, que só foi a uma Copa do Mundo (2002). O país sonha em ser sede de um Mundial (2030 está na mira), mas precisa ter jogadores com qualidade e uma seleção o mínimo competitiva para não passar vergonha se receber a competição.

Foi com esse mote, de valorizar o atleta local, que a federação chinesa criou três regras para diminuir o ímpeto das transações no país. A primeira foi criar uma espécie de imposto, no começo de 2017: clubes que gastassem mais de US$ 6,5 milhões (R$ 21 milhões) para comprar um jogador, pagariam o mesmo valor da transação para um fundo de desenvolvimento dos profissionais da China. Ou seja, o negócio custaria o dobro.

“A pressão europeia deu certo. Com as medidas adotadas, especialmente a taxa que fez com que as operações custassem o dobro, a China perdeu competitividade”, disse Américo Espallargas, advogado especializado do escritório CSMV. “O que vimos na janela foi uma China tímida, sem conseguir seduzir jogadores e clubes com valores estratosféricos. O “fico” do Dudu é um exemplo desse cenário”, concluiu, se referindo ao atacante palmeirense que não aceitou oferta para jogar na China.

O segundo ato foi diminuir o número de estrangeiros em campo de quatro para três. Na prática limitou a participação de um jogador asiático, já que a regra antiga determinava que o quarto gringo a jogar tinha que ter nascido na Ásia. Mesmo assim, abriu mais uma vaga em campo para um chinês e diminuiu o ímpeto dos clubes locais por atletas do Japão e da Coreia do Sul, principalmente.

Por último, se proibiu que equipes endividadas gastassem mais de R$ 25 milhões (conversão da moeda local para o real) em negociações. Boa parte dos times lá têm dívidas com o governo, portanto ficaram amarrados a desembolsar quantia bem pequena para reforçar seus quadros.

As medidas funcionaram. Nesta temporada 2017/2018, Inglaterra, Itália, Espanha, França, Alemanha, segunda divisão inglesa, Rússia, Turquia, Argentina e Bélgica gastaram mais dinheiro. O Brasil aparece em 14º, com custos em contratações de US$ 58 milhões (R$ 188 milhões), atrás ainda (além dos chineses) de Portugal e Holanda.


< Anterior | Voltar à página inicial | Próximo>