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Conselho pede à Fifa suspensão do Irã se restrição para mulheres não acabar
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Marcel Rizzo

Mulheres no estádio acompanhando o amistoso entre Irã e Bolívia, em outubro (Crédito: Vahid Salemi)

O Conselho de Direitos Humanos da Fifa, órgão independente criado no início de 2017 e que tem como função orientar a entidade em casos relacionados ao tema, recomendou que a federação seja dura com o Irã em relação à proibição de mulheres entrarem em estádios para assistirem a jogos de futebol. O relatório com o assunto, finalizado em setembro de 2018, é o mesmo que pede atenção ao calor que pode matar os operários dos estádios da Copa de 2022, como mostrou o blog na segunda (24).

A Fifa tem atendido às recomendações do conselho, que já produziu dois relatórios. No documento, o grupo formado por oito pessoas pede que a Fifa dê um prazo para que o Irã mude definitivamente suas regras, caso contrário serão punidos — houve, nos últimos meses, casos isolados de liberação para que mulheres vissem partidas in loco, mas ainda há muita resistência para uma mudança de setores do governo.

Pelas leis da Fifa, há a possibilidade de que o Irã, caso não cumpra as exigências, seja suspenso da disputa de torneios internacionais, como a Copa do Mundo — os iranianos já participaram de cinco Mundiais, incluindo os dois últimos no Brasil (2014) e na Rússia (2018). Segundo o relatório, a proibição descumpre os artigos 3 e 4 (discriminação por diversos motivos, incluindo o gênero) do Estatuto, além do código de ética, o que poderia levar o caso a investigação do Comitê de Ética, que como o Conselho de Direitos Humanos é independente.

Em 1º de março de 2018, 30 mulheres foram presas, segundo o relatório, ao tentarem entrar vestidas de homem no estádio Azadi, em Teerã, para a partida entre os times locais Esteqlal e Persepolis (inicialmente a informação foram de 35 detidas). Só havia um detalhe: na arquibancada, como convidado de honra do governo iraniano estava o presidente da Fifa, Gianni Infantino.

Todas foram libertadas no dia seguinte, mas tiveram seus dados pessoais retidos pelas autoridades, ou seja, aberta uma espécie de ficha criminal. No encontro com o presidente do Irã, Hassan Rouhani, Infantino apresentou sua preocupação contra a discriminação contra as mulheres e, segundo o documento, a resposta foi a promessa de “desenvolvimentos positivos sobre este assunto em futuro próximo”.

Houve avanços, como a presença de mulheres nos estádios para verem, em telões, partidas do Irã durante a Copa do Mundo da Rússia (a seleção local foi eliminada na primeira fase em um grupo que tinha Espanha, Portugal e Marrocos). Em 16 de outubro, após a finalização do relatório portanto, centenas de mulheres, previamente registradas, puderam ir ao estádio Azadi acompanhar o amistoso do Irã contra a Bolívia. A satisfação, porém, durou um dia. No dia 17 o Procurador-Geral do Irã,  Mohamed Jafar Montazeri, prometeu proibir as mulheres de voltarem aos estádios com o argumento de que “pode levar ao pecado ir a um local ver homens quase pelados”.

Desde 1981, dois anos após a revolução islâmica de 1979, as mulheres são proibidas de comparecer a estádios para assistir a partidas entre homens. Considerado moderado, Hassan Rouhani já afirmou diversas vezes que quer ver mulheres iranianas nos estádios de futebol. Uma mudança definitiva na lei, no entanto, esbarra na posição ultraconservadora de parte do governo e de instituições do país.

Se a Fifa seguir a recomendação de seu conselho de direitos humanos, poderá, em futuro próximo, banir o Irã de competições o que poderia forçar um país que gosta muito do esporte a rever algumas posições. Em novembro, um novo passo favorável foi dado e mulheres registradas com antecedência foram permitidas a verem o jogo entre Persepolis, clube mais popular do país, contra o Kashima Antlers, na final da Liga dos Campeões da Ásia.

A intenção do Procurador-Geral, porém, ainda não foi julgada e o início da abertura pode ter um retrocesso em 2019. Há também a preocupação com o fato de se exigir cadastro das mulheres para entrarem nos estádios, o que, na visão da Fifa, pode resultar em problemas para aquelas que gostam de futebol caso a proibição se mantenha nos próximos anos.

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