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O aprendizado para Tite na seleção: não morra abraçado com os ‘parças’
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Marcel Rizzo

Tite, se realmente ficar na seleção brasileira (o que é mais provável neste momento), deverá aprender com erros cometidos por ele e por seus dois antecessores em Copas do Mundo: não se aposta em jogadores de confiança.

Há, claro, preferência por X ou Y, normal em qualquer profissão. No futebol, que mexe com gostos não apenas técnicos e táticos, mas também de personalidade, isso se acentua. É normal um treinador de um clube preferir esse, em vez de aquele, por uma característica específica de função em campo, ou de como ajudará o ambiente do elenco. Esse pode nem ser melhor do que aquele, mas num clube, a longo prazo, pode funcionar melhor.

Normal, então, que na seleção se repita essa preferência. Há, porém, um problema: ser técnico do Brasil significa ter como objetivo ser campeão da Copa do Mundo, torneio de tiro curto, com jogos eliminatórios, em que uma falha, seja coletiva ou individual, põe por água abaixo trabalho de três ou quatro anos. Aí está o risco de apostar nos “parças”.

Não que “parça”, no caso dos treinadores da seleção, seja algo pejorativo, convocou por questões que não seja de ordem técnica ou tática. O técnico tem confiança em um atleta, e vai com aquele. Aí está o erro, porque no momento da Copa do Mundo a aposta tem que ser no que esteja em melhor fase, técnica e física, não naquele que tem alguma afinidade contigo.

Em 2010, na África do Sul, Dunga levou, por exemplo, Kleberson e Elano, jogadores em quem confiava. Deixou fora Paulo Henrique Ganso, revelação do Santos que, na época, desfilava qualidade e daria à seleção uma alternativa de mudança de padrão de jogo que é fundamental em torneios como uma Copa do Mundo. Você tem uma ideia de time, um esquema na cabeça, mas se der errado, leve opções para mudar isso, não simplesmente atletas da mesma função.

Quatro anos depois, no Brasil, Felipão fez uma aposta semelhante, com jogadores com quem já havia trabalhado em clubes, ou que já não estavam naquele ano na melhor fase, mas ajudaram em algum momento a seleção anteriormente. Nessa lista podem entrar Henrique, Fred e Jô. Note que os dois centroavantes não estavam em sua melhor fase, mas tinham a confiança do técnico. Quando foi preciso mudar, não havia opção.

Tite, talvez, tenha até superado os antecessores nesse tema, e pior: boa parte dos caras que tinha como de confiança tiveram problemas físicos perto da Copa. O lateral-direito Fagner, com quem trabalhou no Corinthians, não jogava há alguns meses se recuperando de lesão — e, se faça justiça, ele fez bons jogos na Copa, apesar de contra a Bélgica ter tido dificuldades contra o ótimo Hazard.

Renato Augusto, que entrou bem contra a Bélgica, também não estava 100% fisicamente, assim como Fred, que se machucou já depois de convocado, e Douglas Costa. Levando em conta que o craque brasileiro, Neymar, era outro se recuperando de lesão, foi arriscado apostar em tantas incógnitas, atletas em que confiava, como fez Tite.

O aprendizado tem que ser: leve quem esteja melhor em maio, quando sai a lista da Copa do Mundo — em 2022 deverá ser depois, mais pro fim do ano, já que o torneio no Qatar será disputado entre novembro e dezembro devido ao calor local. Agradeça aquele atleta que o ajudou nas eliminatórias, que tem perfil que você gosta, mas que naquele momento não está bem, seja tecnicamente ou fisicamente. Mas não morra abraçado com ele.


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