Blog do Marcel Rizzo

Clubes preferem presidente da Federação Paulista na CBF se Del Nero cair

Marcel Rizzo

Uma possível longa suspensão do futebol para Marco Polo Del Nero faz com que a sucessão na presidência da CBF comece a esquentar mesmo com mais de um ano para o término do mandato atual (abril de 2019). No xadrez que pode ser a escolha de um nome que agrade Del Nero (que mesmo suspenso ainda teria força para influenciar na escolha do sucessor), clubes e federações, o do presidente da Federação Paulista, Reinaldo Carneiro Bastos, começa a ganhar mais força justamente por agradar aos clubes.

Inicialmente houve um movimento que tentou emplacar o presidente flamenguista Eduardo Bandeira de Mello como candidato. Seria o ''cara'' dos clubes, e teria apoio de algumas federações por ter não ter um perfil de alguém que faria uma caça às bruxas na confederação — poderia até agradar a Del Nero, que quer alguém que não radicalize na presidência, caso ele saia realmente.

O problema é que Bandeira descarta completamente concorrer à CBF, agora e até mesmo no futuro — seu mandato no Flamengo termina no fim de 2018, e o novo comandante da confederação brasileira, se não houver nenhuma mudança, só assume em abril de 2019. Mesmo assim ele não quer ouvir falar do assunto.

Sem ele, os clubes tendem a apoiar Carneiro Bastos, principalmente porque há o aval das equipes paulistas e até mesmo do Flamengo de Bandeira de Mello. Diretor de Coordenação da CBF, Carneiro Bastos é o canal da entidade com os clubes. Ele também representa a CBF na Conmebol, e negociou por valores maiores de premiação na Libertadores, que em 2018 dobrou o que será pago ao campeão (foi a US$ 6 milhões, cerca de R$ 20 milhões).

Na Fifa, Carneiro Bastos também tem bom relacionamento com o presidente, Gianni Infantino, a ponto de Del Nero cogitar, antes mesmo de ser suspenso provisoriamente pela Fifa, colocá-lo como o chefe de delegação da seleção brasileira na Copa da Rússia, como mostrou a coluna De Primeira, no UOL Esporte. Como não vai à Rússia mesmo se for mantido na presidência (Del Nero não sai do Brasil por orientação de seus advogados desde que passou a ser investigado pela Justiça dos EUA), ele quer colocar alguém com peso para acompanhar a seleção no Mundial.

O problema para uma possível candidatura de Carneiro Bastos é que algumas federações do Norte e Nordeste torcem o nariz para que mais um cartola ligado ASão Paulo assuma a CBF. Del Nero, segundo dirigentes ouvidos pelo blog, ocupou cargos importantes com pessoas de São Paulo, dando pouco espaço a outros estados. E há temor que Carneiro Bastos mantenha isso, ou até aumente essa ''paulistanização'' da CBF.

O apoio dos clubes não significa uma vitória garantida na eleição para presidente da confederação, já que o peso maior é das federações. O voto das 27 entidades estaduais tem peso 3, ou seja, equivale a 81 votos. Os 20 clubes da Série A têm peso 2, ou seja 40 votos, e os da B peso 1, 20 votos, somando, portanto, 60 votos.

Incógnita

Desde meados de dezembro Del Nero está suspenso provisoriamente pelo Comitê de Ética da Fifa, que investiga as acusações feitas de corrupção ao cartola no julgamento que apura o pagamento de propina a dirigentes para a negociação de direitos comerciais de torneios na América do Sul. Del Nero nega todas as acusações, e nessa sexta deve depor por meio de videoconferência a membros do comitê da Fifa.

Nos bastidores da entidade internacional, porém, é dado como certo que Del Nero será suspenso por alguns anos, como o ex-presidente Joseph Blatter e o ex-presidente da Uefa Michel Platini também foram, acusados de pagamentos e recebimentos ilícitos. Caso seja suspenso, Del Nero pode recorrer dentro da própria Fifa, ao Comitê de Apelação, e depois ir até o Tribunal Arbitral do Esporte.

O vice mais velho (em idade), Antônio Carlos Nunes, preside interinamente a CBF e terminaria o mandato caso Del Nero seja banido por longo tempo. A eleição pode ocorrer entre abril de 2018 e abril de 2019, e para que o novo mandato seja antecipado seria preciso que Nunes e os outros vices (Marcus Vicente, Gustavo Feijó e Fernando Sarney) renunciassem, um quadro hoje improvável.